Creta é uma ilha tão poderosa que Zeus, deus dos deuses, foi escondido à nascença numa das suas cavernas e alimentado por uma cabra. A terra de Zeus, da bela Europa vinda das costas da Fenícia, do mito do Minotauro, do Labirinto … Mas os locais abençoados pelos deuses acabam por ser os mais disputados pelos mortais, e punidos e flagelados pela Natureza. Assim tem sido com Creta ao longo de séculos, de milénios.
A História de Creta conduz-nos para uma ilha disputada pela voragem dos homens e as convulsões da terra, e onde actualmente a sua população se confronta com o dilema da preservação de uma mais ancestrais tradições culturais da Europa e o desafio da “modernização” e do enriquecimento fácil permitido pela crescente presença dos novos invasores, que nestes tempos de uniformização acelerada surgem na forma de turistas.
A mítica ilha grega é a terra do vinho, do mel, do azeite, das frutas, da raki (aguardente de vinho), e onde se considera ainda residir a melhor gastronomia do sudeste da Europa, dos Balcãs. Do contraste da neve nas altas montanhas durante o Inverno, que descem pelos vales verdejantes e se prolongam até ao mar. Das praias, das enseadas, de uma temperatura muito amena, e que começa a aquecer a partir da Primavera. Aqui nasceu EI Greco; ou o adorado político grego Eleftherios Venizelos, ou Nikos Kazantzakis, que se socorreu da turbulenta História cretense para o sublime “Liberdade ou Morte”. E onde foi rodado “Zorba o Grego”;. Mas Creta também é, desde a década de 1960, a terra das grandes unidades hoteleiras, do McDonalds que tenta (parece que em vão) destronar o tradicional “suvlaki” - a saborosa carne colocada às porções num espeto vertical e depois esquartejada com mestria, onde a coca-cola se tenta impor ao “frappé”, o popular refresco de café.
Esta ilha foi o berço de uma das principais heranças pré-clássicas, a Minóica, com um importante contributo para a posterior civilização dórica, e da Grécia Antiga. O seu testemunho mais visível é o Palácio de Knossos, nos arredores da capital Iraklion. Mas Creta foi visitada, ocupada, conquistada, martirizada, adulada, por muitos outros povos desde então. Roma absorve-a em 67 a.c., e com a divisão do Império passa para o controlo Bizantino. Uma terra também eleita por árabes dissidentes do al-Andalus, expulsos de Córdova no início do século IX devido a disputas internas, e que após breve refúgio no Egipto se precipitam sobre as suas costas em 824. Com AbuHafs tornam-se senhores da ilha durante 133 anos e fundam Khandax (Candia), actual capital Iraklion. Dizem as crónicas que a “reconquista” bizantina, e a posterior vingança, deixou 200 mil vítimas.
República de Creta
O segundo período bizantino prolonga-se até ao início do século XII, quando a “Sereníssima” República de Veneza passa a controlar a sua subordinada “República de Creta”. Uma presença prolongada, mais de quatro séculos, caracterizada por revoltas, protestos, mas também por um impar florescimento artístico, cultural, arquitectónico. Em 1669, o início da ocupação turca após um doloroso cerco de 22 anos (iniciada em1647) à capital Khandax. Finalmente, em 1898, na sequência da intervenção das Grandes Potências, a estratégica Creta adquire a estatuto de Estado autónomo após a retirada otomana e em 1913 unifica-se enfim com a Grécia. Mas a século. XX tinha que ficar assinalada pela invasão e ocupação alemã (1941-44), e a tremenda, cruel “Batalha de Creta”.
Todo este passada está registada pela ilha, nas museus, nas campas arqueológicas, nas aldeias, nas populações. E apesar deste quase insustentável pesa da História, a cretense permanece um povo hospitaleiro, fiel à suas tradições religiosas ortodoxas, com um sentida de orgulha muita particular. E que continua a oferecer uma faca como o sinal máximo de respeita e amizade.
Quando se passeia pela capital, rodeada pela colossal fortaleza veneziana, uma urbe com cerca de 150 mil pessoas que começou a ser sistematicamente devassada na início da década de 1960, é possível ainda sentir este sabor do passado. Na popularmente designada Praça da Leão com a fonte Marazini na centro (construída em 1628, ainda durante a presença da “Sereníssima”), com suas ruas comerciais, os elegantes edifícios renascentistas que sobreviveram, a Igreja sagrada de Tito., o mercado a céu aberto, as restaurantes de “suvlaki” abertas 24 horas por dias, os cheiros mediterrânicos e orientais. E onde se pode provar a “bougasta”, a saborosa “tarte” de queijo doce ou salgada.
Gastronomia Cretense
Os cereais (sobretudo o pão), as leguminosas, os legumes e os frutos constituem cerca de 85 por cento do consumo alimentar dos cretenses, que o torna num dos povos com maior índice de longevidade em todo o mundo.
As doenças cardiovasculares e a ateroesclerose possuem índices muito baixos entre a população. Neste aspecto, os apologistas deste tipo de dieta remetem com frequência para o “estudo dos sete países”, uma pesquisa conduzida desde 1956 em sete países distintos, em 16 grupos de pessoas, e que abrangeu a Itália, ex-Jugoslávia, Japão, Finlândia, Holanda, Estados Unidos e Grécia, onde se incluiu Creta. Os habitantes da ilha foram os que registaram o mais baixo índice de doenças coronárias, e a menor taxa de mortalidade.
A alimentação, o exercício, o ritual da companhia, o vinho que gostam de partilhar e a exclusiva utilização do azeite como única gordura (ainda) são segredos de longevidade. Consomem corpos gordos mas quase nunca gorduras animais, e nunca utilizam (ou utilizavam) óleos vegetais. Assim, as carnes pouco abundam nos pratos, numa região onde prová-la constituía um rito. Opta-se antes pelo pão de qualidade, pouco peixe, frutos em profusão, os legumes secos e frescos, e a refeição é normalmente acompanhada com vinho. As ervas selvagens são ainda um modo de vida. Diferenças importantes em relação à Grécia continental e restante tradição mediterrânica.
A maior ilha da Grécia
Creta constitui uma das 13 regiões da Grécia e é em simultâneo o distrito mais a Sul da União Europeia. É a maior ilha da Grécia (e a quinta do Mediterrâneo, após a Sicília, Sardenha, Córsega e a sua vizinha Chipre) e fica situada no Sul do Mar Egeu, na encruzilhada da Europa, Ásia e África. Possui uma área de 8.339 quilómetros quadrados (pouco mais de um quarto da superfície do Alentejo). O seu comprimento é de 260 quilómetros, mas a sua costa alcança um total de 1.046 quilómetros. A largura máxima é de 60 quilómetros e a mínima de 12 quilómetros, no “istmo de lerápetra”. Uma grande cadeia montanhosa atravessa a ilha de Oeste para Leste, formada por três diferentes grupos de montanhas. A oeste as Montanhas Brancas (2.452 m), no centro a Montanha de Idi (Psiloritis- 2.456 m), e a Leste a montanha de Dikti (2.148 m). Estas montanhas oferecem a Creta férteis planaltos, como Lasithi, Omalos e Nidha, grutas como as de Diktaion e Idaion, e profundos desfiladeiros, como a famosa “Garganta de Samaria”.
Onde comer
Em Creta, como já se disse, come-se bem. O restaurante “Chriazomenos”, em Agia Irini (Santa Irene) em Spilia, arredores de Iraklion, é um deles. Neste local, a típica cozinha cretense, cujos principais ingredientes são utilizados há mais de três mil anos, torna-se num regalo para a vista e o paladar. Outras sugestões são o restaurante “Sapoutie”, na Praça Elefterios em Iraklion, com música tradicional; ou o excelente “Parasies”, onde todas as refeições são cozinhadas em forno de lenha. Na estância balnear de Elounda, a taverna “Porto Rino” disponibiliza diversas variedades de peixe fresco, que pode ser acompanhado por um fresco vinho branco cretense de Sítia.
O que fazer
Alugar um automóvel, ou optar por um autocarro de carreira, e percorrer os planaltos como o de Lasithi, não longe de Iraklion, com as suas aldeias remotas, os moinhos de vento, e gentes que teimam em manter vivas as suas tradições. Ou percorrer a pé as regiões montanhosas, nos locais que estão assinalados. Ou seguir a rota das Igrejas bizantinas e dos mosteiros ortodoxos de Creta, assinalados no livro de Nikos Psilakis e traduzido em inglês “Byzatine Churches and Monasteries of Crete”, que inclui um mapa onde está assinalada cada rota. A pouco mais de 15 quilómetros de Iraklion situa-se a bonita e restaurada vila de Archanès, onde foram descobertos novos vestígios da civilização minóica. No Leste, visite-se a praia de Vai, com a sua floresta de palmeiras. Ou opte-se por um passeio de barco às ilhas de Hrissi ou Gavdos, no Mar da Líbia, com praias isoladas e paradisíacas. Sem esquecer a “garganta de Samaria”, agora transformada em Parque Natural, encerrado durante o Inverno. A ilha pode ainda ser conhecida através de viagens organizadas, ou pode-se conhecê-la a partir de um iate, que a contorna por mar.
A não perder
O Palácio de Knossos. O palácio minóico é o principal local de interesse em Knossos, uma importante cidade na antiguidade e habitada permanentemente desde o Neolítico até ao século V d.c. A lenda do Labirinto e do Minotauro têm aqui a sua origem. Mas muito cuidado com o fluxo de turistas, com o calor, com as longas filas, sobretudo durante os meses de Verão.
Museu de Arqueologia de Iraklion, vinte salas com peças únicas do período minóico.
Museu de História Natural de Creta: uma visita ao complexo ambiente ecológico e cultural do Mediterrâneo Oriental
Museus de História e Folclore de Creta, em Iraklion.
Museu Nikos Kazantzakis em Myrtia, onde nasceu o escritor, nos arredores de Iraklion.
Onde ficar
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Texto de Pedro Caldeira Rodrigues











































