Singapura, na terra do grande irmão  | Site de Viagens

Singapura, na terra do grande irmão

Publicado em 28 Outubro 2009 por admin

Há, logo à partida, os que se deixam prender pelo asseio e os que detestam a excessiva, quiçá policial, organização. Singapura é tudo isso ao mesmo tempo e mais a obsessão por flores, jardins … E, para nós portugueses, o apelo de Malaca, ali a quatro horas de autocarro.

Da antiga aldeia de pescadores no fim da península malaia nada resta. E para Manhattan do Oriente talvez a floresta de arranha céus, imagem de marca, não seja suficiente. Faltar-lhe-ão aquelas revoadas de vendedores de rua, aquela gente das mais desvairadas posturas sociais, e, acima de tudo, o permanente sentido de transgressão que Nova Iorque exibe e Singapura reprime.

Esclarecido isto e se ainda assim lhe sobrar ânimo e curiosidade, estará o leitor em condições de partir à descoberta de uma cidade que é ao mesmo tempo um Estado e cujos cidadãos, formados por gente vinda de diferentes terras do Oriente, gozam de um dos mais elevados rendimentos “per capita” do mundo. São quase quatro milhões de pessoas, que ocupam exíguos 650 quilómetros quadrados, a superfície total do país, ligado por uma ponte ao sub continente asiático e por carreiras permanentes de “ferrys” ao arquipélago indonésio.

Singapura aparece-nos, nos primeiros contactos de autocarro, como se fora uma terra desarrumada. E assim permanecerá se o visitante a avaliar apenas com o olhar longínquo e parcelar que as deslocações de autocarro proporcionam. Percorrida a pé, contudo, a cidade desmente a visão apressada.

Por isso, como noutros grandes e médios centros urbanos, é preciso primeiro descobrir a alma da cidade (o espírito do lugar, preferem muitos chamar-lhe), para a ela nos podermos entregar demoradamente. Uma vez que foi à volta de um rio chamado Singapura que Sir Stamford Raffles - acostume-se ao apelido britânico, ele dá nome a hotéis, escolas, avenidas, clubes - levantou a cidade no primeiro quartel do século XIX, é ali que encontrará tal alma ou espírito. Sobretudo nos jardins de incontáveis flores que alargam as margens de um e do outro lado, até aos apartamentos de arquitectura leve a empurrarem um pouco mais para trás a massa gigantesca dos arranha-céus.

E nas docas. Nunca por nunca perder as docas. Ao fim-de-semana e nas noites quentes, como costumam ser todas as noites do ano (há chuva, claro, mas o calor seca os pingos rapidamente). De um e do outro lado do rio que serpenteia pelo meio da cidade-estado, goze então as esplanadas dos restaurantes e dos cafés, os pubs, os recintos de baile; misture-se entre a multidão a aplaudir artistas de rua; respeite os pares que namoram esquecidos de quem passa.

Um último parágrafo - e um apenas, para não envergonhar edis portugueses e respectivos munícipes -u2002dedicado ao paraíso ecológico em que os cidadãos de Singapura transformaram a sua terra. Para evidenciar naturalmente o significado único de uma cidade-estado reservar larguíssimo espaço da sua pequena superfície para milhares e milhares de exemplares da fauna e flora mundiais a encherem jardins (o das orquídeas é espectacular), parques (em Jurong encontra a maior concentração de aves de todo o Sudeste asiático) e reservas naturais (a de Bukit Timah contém mais plantas do que a América do Norte inteira). Mas igualmente para enfatizar o extraordinário asseio de ruas, jardins e parques da cidade .

Único senão: esta suspeita contínua de que algures, por detrás do lustro de tanta limpeza, o Grande Irmão nos observa.

singapura

Malaca, a famosa

Conforme. predominem o sentimento ou a razão, assim se afiguram duas as maneiras “portuguesas” de começar este texto. “Uma decepção”, lamentar-se-á o viajante que demandou. Malaca carregado de referências históricas e impante de orgulho nacional. “Duas ou três ruas, meia dúzia de ruínas dos séculos XVI e XVII, e um razoável sentido de aproveitamento turístico”, constatará o mesmo viajante, se acaso conseguiu abafar a tempo os arroubos de lusa vaidade com que saiu de Portugal. Optemos pela solução a meio termo, e acordemos numa visão que vislumbre, para lá do êxtase, o “charme” histórico, e retenha, das maltratadas ruínas, a pátina que apenas alguns sítios no mundo se podem orgulhar de exibir.

Em Malaca levantou Afonso de Albuquerque uma das mais formidáveis praças-fortes do império português à entrada da Insulíndia e das suas especiarias. De Malaca - conta a história da evangelização, menos conhecida - quis o jesuíta Francisco Xavier fazer o ponto de partida dos missionários para a conquista das almas do Oriente extremo. A fortaleza de Malaca, que o “terríbil” vice-rei português apelidou de “a Famosa” (assim ainda hoje chamada pelos locais), cedeu a cinco meses de cerco holandês, em 1641, e quase desapareceu do estreito no século seguinte, alvo da sanha destruidora. dos ingleses.

Apesar de morta duas vezes, porém, “a Famosa” teimou em deixar de pé a Porta de Santiago (”Saint James Gate”, ouvir-seá os guias dizer), um ou outro breve trecho das muralhas, e as paredes da Igreja de S. Paulo, no alto de um morro donde se avista o estreito e uma inesperada réplica da nau “Flor de LaMar”, mais alta que os mais altos edifícios da zona histórica da cidade. Na Igreja de S. Paulo, diz a tradição local que Francisco Xavier, morto a caminho da China e aqui regressado, permaneceu incorrupto até ser transladado para Goa. Às suas altivas paredes de pedra nua encostam-se hoje grossas lápides de inútil expressão memorial, arrancadas que foram dos locais de sepultura pela vingança-inglesa-sobre-a-vingança-holandesa-sobre-tudo-o-que-lembrava-Portugal.

Reserve uma hora ou pouco mais, para a peregrinação aos locais históricos. Outro tanto para percorrer a pé as ruas da cidade antiga e apreciar cerca de um quilómetro de casas de estilo colonial. Resta a última e mais compensadora parte da romaria - a aldeia piscatória onde habita uma comunidade luso-asiática que conserva nomes, costumes, orações e palavras de origem portuguesa. Aconselha-se que viaje por sua conta ou tente contratar em Singapura um “pacote” distinto com o operador turístico. Os programas gerais não prevêem sequer a passagem pelo “Kampong Portugis” de Malaca.

Onde ficar

pode encontrar algumas sugestões aqui.

Texto: Adelino Gomes.

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